
Por Ivan Maia
Presidente da Empresa Municipal de Águas e Saneamento de Itabuna (EMASA)
Bacharel em Administração e Direito; Pós-Graduado em Direito Público e Direito Administrativo
O saneamento básico é, por essência, um serviço invisível. Sua infraestrutura está enterrada, silenciosa, e seus benefícios — saúde, qualidade ambiental, desenvolvimento urbano — raramente ganham destaque público. A população só percebe sua existência quando o asfalto é aberto, quando máquinas ocupam as ruas, quando falta água ou quando o esgoto retorna. Fora dos momentos de crise ou obra, o saneamento desaparece aos olhos da sociedade — e, junto com ele, desaparecem também os problemas estruturais que impedem sua evolução.
O maior desafio, no entanto, não está apenas no que permanece invisível sob o solo, mas na gestão, na governança, na inovação e na falta de continuidade institucional. O setor de saneamento convive com entraves silenciosos que se acumulam há décadas e que explicam, em grande parte, por que ainda não avançamos como deveríamos em universalização, qualidade e eficiência.
Um desses entraves é a baixa modernização tecnológica. Como aponta o setor nacionalmente, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento ainda são insuficientes para permitir a adoção massiva de telemetria, automação, sistemas inteligentes de detecção de vazamentos, controle de pressão e soluções de eficiência energética. Sem inovação, as operações permanecem presas a métodos antigos, de alta perda e baixa previsibilidade.
As perdas de água representam talvez o componente invisível mais crítico desse cenário. De acordo com o estudo mais recente do Instituto Trata Brasil, baseado nos dados do Sinisa (ano-base 2023), o país perde 40,31% de toda a água distribuída. Esse desperdício corresponde a 5,79 bilhões de m³ por ano, o equivalente a 6.346 piscinas olímpicas de água tratada desperdiçadas diariamente, além de mais de 21 milhões de caixas d’água de 750 litros jogadas fora todos os dias. Aproximadamente 60% desse volume corresponde às perdas físicas, ultrapassando 3 bilhões de m³/ano — quantidade suficiente para abastecer 50 milhões de brasileiros durante um ano inteiro. Esses números demonstram que se tratar de uma ineficiência estrutural que compromete a segurança hídrica, eleva custos, pressiona mananciais e retarda a universalização.
Aspecto igualmente invisível é a fragilidade da cultura ESG no setor. A governança, a gestão ambiental e a responsabilidade social ainda não são tratadas como pilares estratégicos por muitos operadores. Persistem deficiências na gestão de resíduos das estações de tratamento, na transparência de dados, na inclusão social e na definição de metas ambientais mensuráveis.
Outro ponto que contribui para essa estagnação é a permanência de um debate já superado em muitos lugares: a contraposição entre público e privado. Essa polarização continua a consumir energia que deveria ser direcionada ao aprimoramento técnico e à ampliação dos serviços. O foco não deveria estar no “quem opera”, mas no como se opera. Modelos cooperativos, arranjos regionais, concessões bem estruturadas e parcerias público-privadas já demonstraram em diversos contextos — inclusive no Nordeste — capacidade real de ampliar investimentos, melhorar a eficiência e elevar a qualidade do serviço. Permanecer preso ao debate ideológico é paralisar decisões essenciais.
Também persiste a falta de cooperação entre municípios, universidades, reguladores e operadores. A fragmentação operacional limita ganhos de escala, impede padronização e reduz a capacidade técnica de grande parte dos municípios baianos. A ausência de consórcios regionais e de redes permanentes de troca de experiências mantém cada operador isolado, repetindo erros e desperdiçando oportunidades de avanço coletivo.
Além disso, muitos municípios ainda carecem de Planos Municipais de Saneamento atualizados, vinculantes e executados. Quando existem, frequentemente são abandonados a cada mudança de governo. Essa descontinuidade institucional impede que metas estruturantes sejam alcançadas e faz com que o setor seja conduzido de forma reativa e improvisada.
Por fim, há a invisibilidade social. A comunicação no saneamento é quase sempre pautada por crises ou por obras. Falta diálogo permanente com a sociedade, falta educação sanitária, falta explicação clara sobre tarifas, qualidade da água, metas de esgoto, investimentos e resultados. Sem comunicação ativa, o saneamento não conquista relevância social — e, sem relevância, não conquista prioridade política.
É justamente nesse ponto que a Emasa de Itabuna, sob a gestão do prefeito Augusto Castro (PSD), vem atuando para quebrar o ciclo da invisibilidade. A empresa retomou o contato direto com a comunidade, implantou ouvidoria e auditoria, qualificou o atendimento ao público com a inserção de novas tecnologias e ampliou sua presença nos bairros e nas redes sociais, aproximando os cidadãos das ações e entregas. Parcerias com universidades foram restabelecidas, reforçando a capacidade técnica da instituição. Paralelamente, obras de ampliação e modernização — muitas realizadas com recursos próprios — estão melhorando o abastecimento de água e a coleta de esgoto em áreas historicamente desassistidas. Com rigor fiscal, a Emasa recuperou sua saúde financeira e voltou a investir. São medidas concretas que já começam a redesenhar o saneamento em Itabuna.
Há capital humano, conhecimento acumulado e experiência suficiente para que o setor avance significativamente. Mas essa evolução depende da disposição de expor e enfrentar os obstáculos silenciosos que o retardam. É imprescindível ampliar investimentos em inovação e P&D, priorizar a redução das perdas de água, consolidar práticas ESG, fortalecer a eficiência operacional, fomentar consórcios e cooperações, garantir estabilidade institucional e estabelecer diálogo contínuo com a sociedade.
O saneamento continuará sendo um serviço subterrâneo, mas não pode mais ser um tema subterrâneo. Quando deixarmos de tratar o sistema como algo que só existe durante obras ou crises e passarmos a encará-lo como um ativo estratégico para a saúde, a economia e o meio ambiente, deixaremos de administrar problemas e passaremos a construir desenvolvimento.
Possuímos potencial para essa virada. Agora, é preciso transformar o invisível em inadiável — porque a água, a saúde e o futuro não esperam.